Especulação imobiliária faz moradores se mudarem de favelas da Zona Sul do Rio

17 de abril de 2014

Com preços de aluguéis disparando e empresários comprando imóveis em comunidades, já se fala em um processo de ‘gentrificação’ ou ‘remoção branca’ nesses locais.

Imóveis com vista para o mar com preços bem menores e um amplo comércio à disposição. Se o turismo e o intercâmbio cultural já vinham ajudando a romper a fronteira entre o morro e o asfalto, agora a especulação imobiliária subiu as favelas do Rio de Janeiro. Após a pacificação nas comunidades da Zona Sul, área mais valorizada da cidade, já é comum encontrar estrangeiros que alugaram ou compraram imóveis. Mas um fato que vem gerando incômodo para os moradores mais antigos são os grandes empresários, que compram áreas inteiras para construir grandes empreendimentos. No Vidigal, favela famosa pela vista para o mar de São Conrado e pelos grupos culturais que abriga, a comunidade já organiza ciclos de debates para discutir o fenômeno da gentrificação. Também conhecida como “remoção branca” ou “expulsão pelo mercado”, esse processo pode levar muito mais gente a deixar suas casas e tornar as favelas áreas de luxo.  Segundo a doutora em planejamento urbano e diretora executiva da ONG Comunidades Catalisadoras, Theresa Williamson, a remoção branca geralmente começa com um grupo bem intencionado, como os estrangeiros que se mudam para as favelas em busca de experiências culturais e moradias mais baratas.

A gentrificação é o contrário do desenvolvimento comunitário. Quando há o desenvolvimento, os moradores conseguem se beneficiar, o que não ocorre nesse processo de remoção branca, em que as pessoas são expulsas da comunidade. A culpa não e dos jovens estrangeiros que vêm fazer intercâmbio, mas é do empresário carioca ou estrangeiro que faz grandes empreendimentos sem ter interesse na cultura do lugar ou não quer preservar o que tem de bom ali”, afirma Theresa.

A maior evidência de que a composição das favelas está se modificando pode ser percebida no preço dos imóveis e dos aluguéis. No Vidigal, onde já há duas imobiliárias, uma casa de quarto e sala, que custava cerca de R$ 20 mil há três anos, hoje não é vendida por menos de R$ 60 mil. Já uma casa maior, com dois quartos, custa entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. Mas o peso maior é no bolso de quem vive de aluguel. É praticamente impossível alugar uma quitinete em favelas da Zona Sul por menos de R$ 700. A vendedora ambulante Jamile Marques, de 31 anos, foi criada em São Paulo e se mudou para a favela Chapéu Mangueira, em Copacabana, há cinco anos. Ela alugava uma quitinete por R$ 350 reais, mas há dois anos começou um pesadelo: o proprietário reajustou o aluguel para R$ 700 reais. Jamille e o marido, o argentino Alejandro Kalpowicc, vivem com renda mensal de R$ 1 mil em média. Eles tiveram que se mudar para a favela da Babilônia em busca de um aluguel mais barato.

“Está tudo muito caro. Você entra numa bola de neve e começa a dever dinheiro a todos. Um dos argumentos do proprietário era que ele ia alugar a casa por R$ 800 para um grupo de estrangeiros. Existia muita gente diferente na comunidade disposta a pagar mais caro”, conta Jamille.

Além da migração para outras comunidades, o processo de alta de preços nas favelas está impulsionando invasões a prédios abandonados, como ocorreu há duas semanas no antigo edifício da Telerj, no Engenho Novo. Outro fator que preocupa principalmente os moradores mais antigos é a perda da identidade cultural das favelas. No Vidigal, a valorização da comunidade, que é pacificada desde janeiro de 2012, já atraiu a atenção de artistas e empresários famosos. Houve até um boato de que o ex-jogador inglês de futebol David Beckham teria comprado uma casa no local por um milhão de reais. Além disso, a favela tem hoje um grande hotel e pelo menos duas pousadas de luxo, onde são realizadas festas que podem custar até 400 reais só para entrar. Segundo Rodrigo Ferreira, diretor financeiro da Associação de Moradores do Vidigal, a comunidade enfrenta grande burocracia e restrição de horários para organizar bailes funks e outros eventos que sempre fizeram parte da cultura do local. Já as festas na parte alta do Vidigal, conhecida como Arvrão, onde há os hotéis caros, ocorrem sem limite de horário. Para ele, está começando uma segregação dentro do próprio morro.

“Morador do Vidigal não vai à festa nenhuma na comunidade hoje. Tem festa que custa R$ 400 a entrada. É pra burguesia mesmo, tanto que o ingresso é vendido lá embaixo, no Leblon.  Está tendo uma remoção branca aqui no Vidigal, como se fosse um Apartheid mesmo. O cara não pode falar que você não vai à festa porque mora no morro, mas ele cobra um preço que você não pode pagar”, diz Rodrigo Ferreira.

Se por um lado a chamada remoção branca assusta os moradores das favelas, há quem aproveite a proximidade de grandes eventos, como a Copa do Mundo, para gerar desenvolvimento e lucrar. É o caso de quem aluga quartos ou pretende ampliar o comércio para receber melhor turistas.  No entanto, quem mora em comunidades lembra a falta de infraestrutura e de serviços básicos, como coleta de lixo e rede de esgoto.

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Fonte: CBN

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